quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A festa de Halloween

 



***ATENÇÃO: É apenas um texto ficcional, mas pode ter gatilhos para você. Se não estiver bem psicologicamente, não leia. ***

Era um dia 31 de outubro, que caiu num sábado, para a sorte de Isabela, que estava se fantasiando de bruxinha sexy para ir a uma festa de Halloween com as amigas. Doces ou travessuras? Ela estava buscando justamente a segunda opção.

Nathalia já estava pronta e esperando a carona de Isabela, com sua maquiagem de Catrina. Ela era fã do día de los muertos do México, e achou a fantasia a melhor opção para essa festa.

Já Mariana não estava se sentindo muito bem. Durante as semanas anteriores, estava super animada, só falava dessa festa que seria dada pela sua melhor amiga, Julia. Já tinha escolhido sua fantasia de vampira, comprou tudo o que precisava logo no começo do mês, pesquisou diversas maquiagens no Pinterest, ajudou Julia com a fantasia de zumbi. Mas chegou o grande dia, e ela sentia algo estranho no ar. Como se pressentisse algo ruim.

Julia estava ocupadíssima, cuidando da decoração da festa no salão do prédio, dos comes e bebes, escolhendo as músicas com o DJ contratado, com quem estava saindo. Ainda não tinha tido tempo de se arrumar, e estava quase na hora da festa.

O terror ia começar.




***

Assim que terminou, foi para seu apartamento com o DJ. Entraram no banheiro, tomaram banho, fizeram sexo. Ela foi se arrumar. Ele se vestiu e foi ajustar seus equipamentos.

Os convidados começaram a chegar. Colegas de faculdade, alguns vizinhos, alguns penetras. Entre eles, um homem fantasiado de Coringa, com uma pochete verde fluorescente. Era o contato do DJ para “animar a festa com alguns docinhos”, como ele mesmo disse.

Isabela pegou seu carro, passou na casa de Nathalia para buscá-la. As duas, então, foram juntas para a casa de Mariana. Ela ainda não estava pronta. Nem sequer tinha se vestido.


Isabela chamou: Vamos, amiga! Você quem nos animou para a festa, e agora não quer mais ir?

Mariana respondeu: Não é isso, Isa… Não é que eu não queira ir. Eu só estou sentindo que algo muito ruim vai acontecer.

Nathalia entrou na conversa: Mari, é Halloween. O clima de terror faz parte da brincadeira, né? Vamos, nós te ajudamos a se arrumar. Confia em mim. O que pode acontecer de tão ruim? Todos os anos vamos a todo tipo de festa, cada rolê aleatório que já entramos. Até na favela a gente já entrou sem permissão dos caras, e saímos de boa.

Então Mariana decidiu ir. “Deve mesmo ser coisa da minha cabeça. A Nath tem razão”. Nathalia e Isabela fizeram a maquiagem. Mariana se vestiu. Todas prontas, entraram no carro, e foram em direção à festa.




***

Quando Julia desceu para o salão, a festa já estava rolando. Muita gente dançando ao som das músicas eletrônicas. A luz negra dava um ar sombrio ao ambiente. Luzes piscando, muita bebida, comida à vontade. Ela estava com fome. Foi atrás de um salgado.

Isabela, Nathalia e Mariana chegaram. Isa já chegou dançando e beijando o primeiro cara que apareceu na sua frente. As outras duas se olharam. “Hoje ela tá terrível”, pensaram juntas.

Nath esbarrou com uma ex namorada, e como ela ainda era a fim dela, foi atrás. Mari foi tentar se enturmar com os colegas de faculdade de Julia, que estavam numa mesa ao fundo do salão, bebendo e comendo antes de irem para a pista.




***

O Coringa chegou perto de Julia, e mesmo debaixo da máscara, ela reconheceu os olhos dele. Ela o conhecia. Ele era o terror da sua família. Seu pai estava internado numa clínica de reabilitação. Ele era quem lhe fornecia cocaína.

Ele chegou bem perto de seu ouvido e sussurrou: Relaxa, gatinha. Só estou fazendo meu trabalho. Tá a fim de uma balinha?

Julia, confusa, peguntou: Você é o contato do Douglas?

Coringa respondeu: Claro. Vim animar a festinha. Mas tranquila, não trouxe a branquinha pra cá. Sei que você não curte.

Julia não conseguia esconder o terror em seus olhos castanhos, e em sua expressão.




***

Isabela estava bêbada, e já tinha beijado todos os homens da festa, exceto o Coringa. Quando ela se aproximou dele, puxou-o para si, e tirou a máscara sem resistência dele. Beijou-o com tesão. Ele percebeu, e falou em seu ouvido: “Calma, garota. Você está bêbada. Cuidado com o que você faz”.

Ela, sem pensar, deslizou a mão até onde estava interessada. Ele então a afastou. “Garota, procura suas amigas e vai pra casa. Eu não transo com mulher bêbada, mas se você não tomar cuidado, alguém vai se aproveitar de você”. E saiu de perto dela.




***

Nathalia e Ana Paula, sua ex… ou melhor, agora era atual, porque tinham acabado de se reconciliar, foram até o Coringa, buscar algo para enlouquecerem juntas longe dali. Ana estava de carro, e depois de comprarem as drogas, foram juntas para um motel.




***

Mariana ainda não se sentia bem. Mesmo já tendo comido, bebido um pouco e dançado com Juan, colega de Julia que veio de intercâmbio da Argentina, não conseguiu se sentir à vontade. A companhia era divertida, mas o sentimento de que algo ruim aconteceria, só aumentava a cada minuto.

Juan, que estava jogando ideia nela a festa inteira, perguntou: Estás bien?

Mariana, sincera, respondeu: Na verdade não, Juan. E o pior é que não vou poder ir embora. A Isa está completamente bêbada, e não pode dirigir, e vim de carona com ela. A Nath foi embora da festa com a ex dela, e a Julia sumiu. Já fui até no apê dela, e não a encontrei.

Juan, tentando falar português, perguntou: Querés que eu te lleve para casa?

Mari aceitou. Só queria ir embora dali.




***

No caminho, Juan disse que queria dar um beijo nela a festa inteira, mas não sabia se ela queria o mesmo. Ela respondeu que não estava num bom momento, mas que poderiam marcar de sair outro dia, e quem sabe não poderiam se conhecer melhor e ficar. Para esticar a conversa, Juan foi o mais devagar possível.

Quando chegaram à porta da casa dela, trocaram telefones, e combinaram de se falar no WhatsApp para marcar o encontro.

Mari desceu do carro, acenou para Juan, girou a maçaneta da porta e entrou. E o que ela encontrou na sala a deixou completamente assustada.




***

O dia já estava quase amanhecendo, e os convidados já tinham ido embora. Douglas, o DJ, procurou por Julia em todos os cantos, para que pudessem limpar e arrumar tudo para entregar a chave do salão à síndica do prédio, porém não a encontrou. “Já que a patricinha decidiu desaparecer, vou ter que me virar sozinho”, pensou. Irritado, chamou a zeladora do prédio e os dois faxineiros, e começaram a limpar.

Seu João, um dos faxineiros, foi ao banheiro para limpá-lo. Achou estranho que a porta estivesse trancada, mas como tinha uma cópia da chave, destrancou-a e a abriu. E ali, encontrou algo que o traumatizaria pelo resto da vida.




***

Isabela acordou num lugar que não conhecia. Era um terreno baldio, cercado de muros, e com um portão enorme, que estava fechado. A ressaca veio, junto a uma dor enorme em sua vagina e em seu ânus. Quando se olhou, percebeu que sua fantasia estava toda rasgada, e ela estava quase nua. Havia sêmem escorrendo em sua perna. Ela não se lembrava de nada, não sabia onde estava, mas sabia de uma coisa: alguém a estuprou e a largou ali.




***

Nath e Ana Paula estavam no carro. Ana dirigia, mesmo sob os efeitos das drogas que estavam usando. Estava a caminho da casa de Nath, a toda velocidade. Porém, Ana perdeu o controle do carro enquanto beijava Nath. Bateram no muro de um terreno baldio. Não estavam usando cinto de segurança. Ana bateu a cabeça com toda a força no volante do carro. Nath se chocou contra o para-brisa, quebrando-o e voando para fora do carro. Isabela, que estava ali, tomou um susto. O carro quase a atropelou.




***

Mari estava sentada na calçada de sua casa. Juan não havia ido embora, estava ao seu lado, abraçando-a. Havia emprestado sua jaqueta, para que ela não passasse frio. A polícia e a ambulância estavam em sua casa. Ela não conseguia parar de chorar.

Quando chegou e abriu a porta de sua casa, encontrou os corpos de seus pais e seus dois irmãos menores. Um em cada canto da sala. Todos com tiros em várias partes do corpo, e poços de sangue ao redor de cada um. Na parede, uma mensagem escrita com sangue: “A próxima é você, Mariana”.

Ela sabia muito bem de quem se tratava. Seu ex-namorado possessivo, que não havia aceitado o fim do relacionamento. Ao lado do corpo de Matheus, seu irmãozinho, que tinha apenas 2 aninhos, tinha uma máscara de Coringa.




***

Seu João correu para o salão, gritando: “SOCORRO! SOCORRO! A SENHORITA JULIA ESTÁ MORTA NO BANHEIRO MASCULINO!”.

Douglas correu para o banheiro e se deparou com a cena. Vários remédios antidepressivos espalhados pelo chão, encharcados com sangue. Uma lâmina na mão esquerda de Julia. Uma garrafa de vodka, quase no fim, na mão direita. Os braços, cortados. Ela, sem vida, no chão, vestida de zumbi. Uma carta e uma caneta, em cima da pia. Dizia: “Mariana tinha razão. Hoje foi um dia que aconteceu coisas muito ruins. Uma delas foi o maldito do traficante que entrou nessa merda de festa, que arruinou minha vida e que obrigou meu pai a vender minha virgindade pra ele por uns gramas de cocaína, quando eu tinha só 12 anos”.




Feliz Halloween. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

7 on 7 | Halloween 🎃

Olá, pessoal! Como estão vocês?

Antes de mais nada, estou muito feliz em fazer parte do projeto fotográfico "7 on 7", em que 7 blogueiras publicam 7 fotos sobre um tema específico no dia 7 de cada mês. Conheci o projeto através do blog Tamaravilhosamente, e as meninas me receberam com muito carinho para começar agora no mês de outubro.

O tema deste mês é Halloween 🎃, e vou compartilhar com vocês algumas fotos e a história por trás delas.

A primeira delas é essa selfie que tirei no ano passado, para a sexta-feira temática lá da empresa. A fantasia é de Catrina (caveira mexicana), e apesar de parecer meio séria na foto, esse dia foi extremamente especial e divertido, e fazia parte de um momento maravilhoso que eu estava vivendo na minha vida profissional.

Euzinha com o cabelo desbotado e exausta, mas feliz e com cara de Catrina né? 😄


Essa foto com uma make mais trevosah foi tirada na época que eu estava no meu primeiro emprego. Também foi um dia temático de Halloween.

Não lembro muito bem se essa foto foi tirada em 2015 ou 2016, mas olha essa carinha de quem sofria por ganhar menos de um salário mínimo por mês... 🤭


As próximas fotos são das minhas unhas decoradas com o tema do halloween. A inspiração eu peguei no Pinterest e fui adaptando do meu jeito.

Essa foto eu contei com a ajuda do meu esposo, Luiz Henrique, na produção, iluminação e cenário 😍

Essa eu tirei num fundo branco mesmo, e dei uma editada para ficar com um ar mais assustador

Outro estilo que é bem legal de usar no Halloween é abusar de cores escuras e fortes, como o preto e o vermelho, e eu aproveitei e fiz esse degradê usando a técnica da esponja

E, para finalizar, fiz dois desenhos inspirados no tema. Fazia tempo que eu não desenhava, e o desafio me tirou da zona de conforto, me ajudando a colocar a criatividade para fora.

Obs: Não sou a melhor desenhista do mundo, e meus desenhos não tem técnica nenhuma por trás. Desenho o que me dá vontade e do jeito que ficar, ficou. 😂


Eu gosto de fazer desenhos aleatórios assim, com vários elementos espalhados no papel. Mas, como era para o desafio, resolvi caprichar um pouquinho e fazer esse caldeirão, com se os símbolos do Halloween estivessem saindo de dentro dele por uma mágica.


Eu simplesmente amei esse desenho, as cores, o morceguinho, fiz com todo o carinho 

Essas foram as minhas fotos do 7 on 7 deste mês. Comentem aqui embaixo o que vocês acharam, e se vocês curtem Halloween. 😉 

Ah, e não se esqueçam de dar uma olhadinha nos blogs que também estão participando desse projeto:

Câmera Passaporte 

Coruja Geek 

Diário de um Universo Paralelo 

Retipatia 

Tamaravilhosamente 

Vivendo Sentimentos 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Resenha #33 - Um jeito de recomeçar



Título: Um jeito de Recomeçar

Autor: Filipe Salomão

Gênero: Romance

Nacionalidade: Brasileira

Publicação independente

Nota: 8/10


Um jeito de recomeçar é o quinto livro de Filipe Salomão, e é uma publicação independente, que conta a história de Carol, uma jovem rica de 20 anos que perde os pais de maneira trágica, e que parte para o litoral em busca de um recomeço para a sua vida. Lá, ela se depara com a pousada Piña Colada, é recebida pelo casal de donos do local e decide viver ali por algum tempo. 

Carol, que estava completamente perdida e não sabia o que fazer da própria vida, acaba metida em um caso com Augusto, um jovem que trabalha na pousada e dá aulas de surfe para "pegar mulheres", se envolve com um homem casado e descobre um romance homossexual entre o dono da pousada e seu outro hóspede. Em meio à aparente calmaria da pousada, Carol se torna um furacão que desestabiliza as relações entre as pessoas do local com suas aventuras sexuais e seu jeito "livre" de ser, que na verdade era apenas uma máscara para o caos que vivia dentro de si.

O livro tem um ótimo enredo, e toca em um tema delicado que é a saúde mental de uma pessoa que perdeu os pais de forma traumática, e que não busca ajuda psicológica, causando traumas às pessoas ao seu redor. Não temos muitas informações sobre o caráter de Carol antes da morte dos pais, mas suas ações depois desse episódio podem caracterizá-la como uma vilã não intencional. Enquanto tomava decisões não pensadas que afetariam a vida das pessoas e dissimulava situações para manipular Augusto, lutava contra uma dor que ela ainda não tinha aprendido a lidar.

A versão que li, infelizmente, tinha alguns pontos a ser corrigidos, o que em certo ponto atrapalhou o aproveitamento completo do livro. Além disso, as lutas internas de Carol poderiam ter sido mais exploradas em monólogos da personagem. Ainda assim, é uma história interessante e aberta para uma continuação que gostaria muito de conhecer.


Se você se interessou pelo livro, ele está disponível na Amazon neste link.


Outras obras de Filipe Salomão:

Cozinhando com o Futebol Americano

Matando Formigas

Sorte ou Azar?

Nova York Rock City

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Mulher Leoa

 



Era uma quarta-feira, 19 de abril. Estava eu indo gravar um vídeo para o YouTube, junto com meu esposo Luiz Henrique, na casa de um amigo dele, em pleno dia do meu aniversário. Leandro o nome desse amigo. Poxa, justo no dia do meu aniversário... Achei que teria um jantar romântico, qualquer coisa assim. Mas não. Tive que passar 40 minutos quase passando mal num ônibus, enquanto o motorista brincava de Velozes e Furiosos nas ruas da Zona Sul de São Paulo. Já estava de noite, um pouco mais de 18 horas, e já estava escuro.

O nome do bairro é Moinho Velho, que fica ali próximo ao Sacomã. Estava tonta, já que normalmente passo mal em viagens de ônibus, mas não deixei de perceber que aquela região era bem bonita, e os prédios pareciam no mínimo de classe média alta. Meu esposo avisou ao Leandro que havíamos chegado, e era para ele descer e abrir o portão do prédio para nós. Poucos minutos depois ele apareceu. Rapaz de 23 anos, loiro, olhos castanhos, branco, de óculos, magro e com cara de nerd. Devia ter aproximadamente 1,80m. Parecia-me familiar, mas não questionei isso logo de cara. Gravamos, e depois ele nos convidou para subir até o apartamento onde morava com a mãe e as duas irmãs mais novas. As meninas, Larissa, de nove anos, e Luana, de 13, estavam no quarto vendo vídeos e brincando. A mãe, Patricia, não estava em casa. Bebemos um copo d’água, usamos o banheiro e estávamos para ir embora, quando Patricia chegou. Fomos devidamente apresentados, e começamos todos a conversar.

Patricia é uma mulher muito bonita. Seus cabelos castanhos um pouco abaixo do ombro dão uma jovialidade ao seu rosto fino, principalmente com o corte repicado que usa. Deve ter 1,75m de altura mais ou menos, já que é mais alta que eu. Tem o corpo magro mas definido, uma barriga chapada, e anda sempre muito bem arrumada. Nos seus 44 anos, quase 45, parece estar no auge de sua beleza. Seus olhos escuros são de mulher leoa, corajosa, batalhadora e durona, como seu signo. Ela possui um ar de deboche com a vida, como se já a tivesse domado há muito tempo.

Sua história começou quando sua mãe engravidou, mas não sabia que era uma gravidez de gêmeos, já que ela apareceu na frente de seu irmão na ultrassonografia, e ele não foi identificado. Por conta disso, o enxoval foi preparado apenas para um bebê. No momento do parto cesariano, quando os médicos já estavam fazendo os pontos, o pezinho de um outro bebê apareceu, e tiveram que tirá-lo dali. Na época, toda mulher queria dar um filho do sexo masculino para seus maridos, e mesmo seu pai tendo que correr para conseguir mais um enxoval, estavam todos felizes.

Patricia cresceu sendo criada pela avó, pois sofrera rejeição de sua mãe desde criança. Sua relação próxima com o pai causava ciúmes, que chegava muitas vezes a ser agredida ao ponto de parar no hospital. Ela foi crescendo, e por conta dessa situação, apesar de passar a semana na casa dos pais, assim que saía da escola na sexta-feira, já ia direto para a casa da avó. Além de todos os abusos, era obrigada pela mãe a fazer os trabalhos de escola do irmão e a passar respostas de exercícios e provas para ele, sob ameaças.

Sua adolescência também foi uma época muito complicada. Enquanto ela se dedicava aos estudos, sonhando em prestar o vestibular em Direito, seus pais queriam que ela procurasse um marido e se tornasse uma dona de casa. Para eles, apenas os homens tinham o direito de trabalhar e fazer faculdade. Quando estava terminando o último ano do colegial, para fugir de tanto sofrimento, ela usou o dinheiro da mesada que seu pai lhe dava para comprar folhetos para estudar, pagar as provas e prestar o vestibular escondida. Ela sabia que precisava estudar e trabalhar para ter independência financeira e sair daquela situação.

Seu sonho de entrar na faculdade então se concretizou aos 17 anos. Passou na primeira fase da USP, na Mackenzie, na PUC e na FMU, em Direito. A faculdade escolhida foi a FMU, que para ela parecia a melhor opção por estar em segundo lugar no ranking de melhores cursos de Direito na época, e porque a PUC estava sempre em greve e na Mackenzie tinham muitos dependentes químicos. O momento mais tenso foi o de dar a notícia para os pais. Um motivo de orgulho para muitos, mas não para eles. Ficaram bravos, quase bateram nela, mas não tinham o que fazer. Era a vontade dela, e a matrícula já estava feita.

Como a faculdade era cara, teve que trabalhar como estagiária num banco, onde ficou por seis meses, mas acabou se envolvendo numa confusão amorosa: uma advogada para quem ela prestava serviços estava apaixonada por um advogado que se interessou por Patricia. O ciúme que a sua chefe sentiu fez com que houvesse uma briga, que acabou fazendo com que ela saísse do emprego e fosse estagiar num escritório de advogados.

Nesse escritório, a namorada de um de seus chefes enxergou nela o potencial para uma carreira de modelo. Na época, Patty era surfista e, com mechas loiras e lentes de contato azuis, ganhou muito dinheiro fazendo desfiles, chegando até a viajar para Milão. Tudo isso sendo conciliado com o estágio e a faculdade.

Um ano depois, saiu do escritório e foi trabalhar no antigo Banco Noroeste, que hoje pertence ao Santander. Como já estava no segundo ano da faculdade, conseguiu o cargo de assistente jurídica, e tinha um bom salário. Lá, trabalhou durante 10 anos. Patty era inteligente e dedicada, e continuou conciliando os desfiles com a carreira na sua área, até que sua mãe descobriu qual era seu emprego paralelo. Ela foi capaz de chamar a própria filha de prostituta e fazer um escândalo na agência onde Patty trabalhava, o que destruiu sua carreira nas passarelas, chegando até a perder uma oportunidade de trabalho no SBT.

Nessa época, Patty era apaixonada por um rapaz chamado Gilberto. Ele era muito esforçado, estudava e trabalhava, mas como sempre seus pais queriam atrapalhar seus planos e atrapalhar esse relacionamento, tudo porque ele não era rico. Após uma das diversas brigas que o casal tinha, ela viajou para Itanhaém e lá conheceu um rapaz, chamado Rogério, com quem teve seu primeiro filho. Ficou com ele para fazer ciúmes a Gilberto, mas na verdade não o amava. Porém, como o rapaz fazia parte da família que era dona da maior parte do comércio da cidade, seus pais logo trataram de obrigá-la a morar junto com ele, em Osasco, onde a mãe dele morava. Mesmo Rogério dando sinais de que era extremamente ciumento e possessivo, além de violento, e Patty tendo avisado sua mãe disso, ela não se importou e a obrigou a manter o compromisso.

Sua então sogra tinha duas casas, uma onde ela morava e outra estava alugada. Mas isso não foi problema para ela, que pediu a casa de volta para que seu filho pudesse viver com Patricia. A partir de então, um novo pesadelo se instaurou em sua vida: enquanto seu “marido” guardava todo o dinheiro que tinha para si, ela tinha que bancar a casa e até a sogra, além de toda a possessividade de Rogério, que não a deixava ir sozinha nem para o trabalho, nem para a faculdade, nem mesmo para assistir aula, já que na época ele conseguia entrar na sala mesmo sem ser matriculado. Em um desses episódios, dentro do carro, quando Patty foi soprar a fumaça do cigarro que fumava para fora da janela, coincidiu parar bem ao seu lado um rapaz bonito em outro carro. Simplesmente por achar que ela estava olhando para o rapaz, ele lhe deu um beliscão que deixou um hematoma em sua perna.

Chegou um momento em que ela já não aguentava mais passar por aquelas situações, e decidiu terminar o relacionamento abusivo. Rogério até pareceu arrependido de seus atos de início, foi carinhoso, assim como todos os homens abusivos fazem. Mas era apenas uma armadilha e, numa relação sexual, ele rasgou a camisinha de propósito para que Patricia engravidasse. Isso foi num mês de agosto, no seu último ano de faculdade. Mesmo contrariada, ele e seus pais marcaram a data do casamento para o dia 5 de novembro daquele mesmo ano, e ela tinha que bancar a festa, o vestido, comprar o apartamento e preparar tudo. Porém, cinco dias antes da data do casamento, eles tiveram uma briga feia, ele a empurrou, ela perdeu a cabeça e partiu para cima dele. Depois de toda a confusão, ela arrumou suas coisas e foi passar a noite na casa dos pais, deixando bem claro que não haveria mais casamento.

No dia seguinte, quando achou que poderia ir para o apartamento que havia comprado, uma surpresa. Rogério, que havia ido em seu lugar para assinar a escritura porque ela estava em reunião, colocou o imóvel no nome dele, e quando ela chegou lá, a fechadura estava trocada e o apartamento praticamente vendido para outra pessoa. Quando foi avisar o buffet, a igreja e o aluguel do vestido que não haveria mais casamento, dos quais ela teria como receber de volta metade do valor dos dois, outra desagradável surpresa: o pai de seu ex-noivo já havia passado por lá e pegado o dinheiro dos dois estabelecimentos.

Já irritada, Patricia foi até a casa deles, e fez um pedido bem simples: “enfiem esse dinheiro no rabo, esqueçam que eu existo e me deixem seguir minha vida em paz com meu filho”. Nem pensão ela pediu, para não ter mais contato algum com aquela família.

Por conta de tantas agressões e tantos momentos de tensão, Patty começou a ter sangramentos e, numa consulta com a ginecologista, descobriu que sua placenta havia descolado e, se continuasse com a correria de sempre, acabaria tendo um aborto espontâneo. Ela então escolheu passar a gravidez inteira em repouso, para não perder seu bebê.

Depois de toda essa confusão, como sua carreira estava estabilizada, ela decidiu comprar outro apartamento e morar sozinha com o filho. Porém, seu pai acabou falindo e, por conta disso, pediu para que ela continuasse morando em sua casa para ajudá-lo financeiramente. Patty concordou, desde que eles cuidassem de seu filho enquanto ela trabalhasse. Ela então registrou a própria mãe como babá e pagou-lhe um salário, para que ela pudesse fazer esse trabalho. Com isso, ela construiu no fundo da casa dos pais um espaço para que ela também pudesse acolher a avó, cuidando dela até que todos se mudaram para um apartamento, e ela foi viver com uma de suas filhas até sua morte.

Durante mais de sete anos, ela não quis ter mais relacionamentos. Decidira viver apenas para seu filho, até que o banco onde trabalhava fora vendido e todos os advogados demitidos, incluindo ela. Então, teve que arranjar outro emprego, e encontrou um de gerente comercial na Filtros Europa. Acabou conhecendo o dono da empresa, Ricardo, com quem teve sua filha do meio, Luana. Seus pais, mais uma vez, não gostaram do relacionamento. Mas desta vez por outro motivo: medo dela se casar e não ter mais ninguém para sustentá-los.

Na época, apenas ela trabalhava para sustentar a família inteira, incluindo a casa da tal tia que cuidava de sua avó e tinha filhos pequenos. Até havia emprestado o FGTS inteiro que recebeu do tempo de trabalho da empresa antiga para seu pai. Eles chegaram a vender a casa onde viviam, e foram morar em um apartamento, no mesmo prédio onde ela vive hoje. Outra criança estava chegando na família. Viagens, comidas caras, restaurantes, bebidas, todos esses mimos, tudo no cartão de crédito e nos cheques em nome de Patricia. Ela pensava que ao fazer de tudo para o conforto deles, ela pudesse comprar o amor dos pais. Mas estava muito enganada.

Ricardo estava ficando saturado de ver Patty se desdobrar para sustentar tudo praticamente sozinha, enquanto seus pais tinham tudo de bandeja e não procuravam ajudar nem pagando a conta de luz. O relacionamento deles foi se desgastando de tal forma que, quando estava grávida de cinco meses, ela teve que escolher entre o pai de sua filha e os pais. Pensava ela: “ah, marido eu posso arranjar em qualquer esquina; família é para sempre, eu não posso abandoná-los”. E o casal então se separou definitivamente. Seus pais estragaram mais um de seus relacionamentos, e até o dinheiro que já estava destinado aos seus cuidados médicos com a gravidez e o parto, seu pai alcoólatra gastou em bebida.

Com o passar do tempo, Patty não conseguia mais sustentar a todos sozinha. Desempregada, sem dinheiro para o parto, com dois filhos para criar. Teve que se virar para pagar as contas, vendendo salgados para festas de aniversário de crianças. Aos sete meses de gravidez, sua bolsa estourou, e como seu pai não a deixou sair com o carro, ela teve que ir de ônibus até o Hospital São Paulo, para descobrir que ele estava em greve e voltar para casa. Sangrando. Bolsa estourada. Espera de uma semana, até o hospital voltar ao funcionamento. Sua filha sobrevivendo dentro de uma bolsa cheia do próprio xixi. Risco de vida para Patricia. Foi internada na hora. Sozinha. Ninguém a visitou. De tanta angústia, chegou até a ter uma parada cardíaca.

Depois de um tempo, quando sua filha já tinha seis meses, seu pai decidiu então vender o apartamento, já que estava em seu nome, e viver de aluguel para não depender mais da filha que é “mãe solteira”. Contrataram uma imobiliária, e Patty conheceu ao Peres e ao Francisco, que lhe ofereceram um emprego de corretora e advogada na J Peres. Na época, ela também conheceu Flavio Solano, o construtor do prédio onde ela vive, que se indignou com a exploração que sua família lhe fazia, e lhe fez uma ótima proposta: vender o apartamento para ela por menos da metade do que ele valia. Todavia, Patricia não conseguia deixar seus pais na rua, e eles voltaram a viver no apartamento com ela.

Trabalhando na J Peres, Patty começou a namorar com Francisco, sem saber que ele era dependente químico. Depois de um tempo, ela descobriu, mas como via que a família dele não se importava com a situação, fez de tudo para ajudá-lo a sair das drogas. E sozinha, tinha que dar conta de sustentar a casa, dar dinheiro para o irmão que passava por dificuldades financeiras, cuidar dos filhos, do namorado que sumia de madrugada, e até do filho que Francisco já tinha. Mal dormia, mal comia. Sempre tentou cuidar de todos, mas não tinha ninguém que lhe estendesse a mão. Com ele, ela teve Larissa, sua filha caçula, da mesma forma que aconteceu quando ela engravidou de seu primeiro filho. Porém, dessa vez, o pretexto era o medo que Francisco tinha de perdê-la.

A situação de Patricia estava tão crítica durante a sua terceira gravidez, com o julgamento de seus pais por ser mãe solteira mais uma vez, por ter um filho de cada pai, por Francisco se envolver cada vez mais nas drogas e ter chegado até a traí-la com outra dependente química, que ela acabou tendo um AVC.

Mas, mais uma vez, ela se reergueu. Continuou lutando, pelos seus filhos. Mesmo decepcionada por seus pais e seu irmão só estarem ali por dinheiro, mesmo com seu namorado a traindo. Teve que adiar diversas vezes a cesariana, porque sempre tinha reuniões de trabalho de última hora. Até que finalmente ela conseguiu ir, mesmo tendo que perder a hora marcada e ter que aguardar para ser internada. Sozinha de novo.

Passou-se um tempo depois do parto, e Patricia decidiu terminar o relacionamento e, consequentemente, sair do emprego. Com raiva, seus pais disseram que pegariam o dinheiro que eles tinham para receber de um processo para ir embora. Mas como eles tinham total acesso à sua conta bancária, eles ainda conseguiram pegar um empréstimo e um financiamento em seu nome, além de tomarem todo o dinheiro que ela tinha no banco. Desempregada, com o nome sujo, devendo 3 anos e meio de condomínio e 4 anos e meio de IPTU. Duas crianças pequenas e um adolescente para alimentar. Foi a gota d’água. Decepção, angústia, fundo do poço.

Mesmo com os pais fora de casa e de sua vida, eles continuavam a atormentar. Seu pai entrou na justiça contra ela afirmando que tinha direitos sobre o apartamento onde ela vive porque ele foi comprado com dinheiro da venda do outro apartamento que estava no nome dele. Sua mãe fazia trabalhos de macumba contra ela, junto com sua tia. Com muito esforço sobrevivia, vendendo latinha, vendendo as próprias roupas de grife, para poder alimentar a si e também aos seus filhos.

Reerguer-se do zero não foi nada fácil. Seu apartamento ainda hoje sofre as consequências de um período avassalador. Mesmo num prédio aparentemente confortável, ele é muito simples. Um único sofá de três lugares e uma mesa de jantar na sala. Eles não possuem TV nem estante na sala. O guarda-roupas que fica no quarto de Patrícia foi todo montado por ela mesma, reaproveitando a madeira de outros móveis. O banheiro também não fugia do padrão da casa. Tudo simples, mas naquele lar, existe um amor e uma união que não se vê nem em comerciais antigos de margarina. As próprias meninas riam ao falar de quantas vezes todos já chegaram a tropeçar num degrau que separa a sala de estar do espaço reservado para a mesa de jantar, quando a energia foi cortada e eles passavam a noite na mais completa escuridão.

Hoje, eles já têm como sobreviver melhor. Leandro faz alguns bicos num buffet e se dedica a um possível futuro como youtuber. Patricia trabalha num escritório de advogados. Mas ninguém tem um smartphone. Na casa, o que eles têm de tecnologia é um tablet de uso coletivo e um notebook que está com o carregador quebrado. Tanto que as edições dos vídeos têm que ser feitas na casa de um amigo que é co-autor do canal no YouTube junto com Leandro.

A comunhão da família dá uma sensação de acolhimento a qualquer pessoa que esteja entre eles. Quando comentaram que era meu aniversário, todos da casa me abraçaram, desejaram felicidades e foram muito acolhedores. A comunicação entre eles então, nem se fala. Conversam sobre todos os assuntos. Para Patricia, não existe tabu dentro de sua casa. Até Larissa, a caçula, já é bem informada sobre assuntos que para a idade dela geralmente não se fala muito, como sexo por exemplo. Luana já tem um namorado na escola, e isso é algo tido como normal entre eles, o que em outras famílias seria inadmissível, já que a menina “só tem 13 anos”.

Patty não voltou a se relacionar com mais ninguém. Vive apenas com seus três amores, e faz de tudo para que eles estejam preparados para enfrentar a vida como ela é: dura, difícil, e nem sempre terão alguém em quem ter algum suporte. Como ela mesma diz, “eu não estarei viva para sempre para ajudar eles, então quero deixar algo para que eles possam seguir a vida”. Mas ela não deixa de curtir cada momento que pode com eles. Quase todos os dias, os três passam grande parte da noite deitados junto com ela em seu quarto, conversando, dando risada, ou assistindo filme e comendo uma pipoca.

A conversa estava maravilhosa, mas eu estava pálida e passando mal. A viagem de ônibus, o estômago vazio e um desafio de comer cebola para o tal vídeo, e minha cabeça estava girando. Estávamos quase indo embora, mas eu não estava em condições de pegar um ônibus e voltar para minha casa. Tive que voltar para o apartamento e ir ao banheiro. De pronto, Patricia se mostrou preocupada comigo, como uma verdadeira mãe. Ao me ver naquele estado, ofereceu-me um lanche para forrar o estômago. Enquanto não viu meu rosto voltar a ter cor, não me deixou ir embora. Meu esposo também comeu e ficou ao meu lado. Mas ela realmente me surpreendeu. Mesmo tendo passado por tanta coisa, tendo que se virar para sobreviver sozinha, driblando assédios, com todos os motivos do mundo para não ter afeição a mais ninguém, ela demonstrou um amor imenso por quem acabara de conhecer.

Simplesmente percebi que este foi o aniversário mais exótico que já tive, mas também um dos mais incríveis. Ganhei novos amigos e uma experiência de vida extraordinária. E essa leoa que colocou no bolso todas as diversidades que passou, demonstrou mais gratidão pela vida do que muitas pessoas que possuem tudo o que desejam.


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Playlist #30 - TOP 10 trilhas sonoras de novelas latinas




Olá, pessoal! Tudo bem com vocês?


Como vocês já sabem, eu AMO novelas mexicanas/latinas. E mesmo não tendo assistido todas essas novelas, por acompanhar algumas notícias das novelas, também acabo conhecendo as músicas da trilha sonora delas. Então, separei essas músicas para vocês conhecerem e, se gostarem, adicionem no seu app de streaming de música. Preparados? 



Música: La Descarada - Reyli Barba 
Novela: Rubí



Música: Víveme - Laura Pausini 
Novela: La Madrastra



Música: Déjalo ir - Margarita la diosa de la cumbia 
Novela: Corazón Indomable



Esa hembra es mala - Gloria Trevi 
Novela: Teresa



Música: La Usurpadora - Pandora 
Novela: La Usurpadora



A que no me dejas - Alejandro Sanz 
Novela: A que no me dejas



Amor Real - Sin Bandera 
Novela: Amor Real



María la del Barrio - Thalía 
Novela: María la del Barrio



Solo quédate en silencio - RBD 
Novela: Rebelde




Mi Tesoro - Jesse & Joy 
Novela: Qué pobres tan ricos!




Bônus: 
Música: Enamorada - Miranda 
Novela: Lalola



E aí, o que acharam das músicas? Gostaram? Me contem aqui nos comentários, e compartilhem com os seus migles. 😉